CAMINHO DAS PEDRAS: ALEXANDER MEURER (EU POLÍCIA)

Oi, pessoal! O caminho das pedras hoje é um pouco diferente. Às vezes pensamos na aprovação como um fim em si e esquecemos o que vem em diante: o exercício do cargo, com todos os defeitos e qualidades. A idealização é necessária porque é dela que vem a motivação, mas calma: nenhuma carreira é perfeita. Nenhuma. Mas calma de novo: você pode amar essa imperfeição.

A história do Alexander até a aprovação é uma inspiração não só pela persistência, mas pela sua visão de mundo e da profissão. Hoje, delegado de Polícia do Estado de Santa Catarina, o Alexander compartilha conhecimento e material para concurso público com o projeto Eu Polícia. A iniciativa, aliás, muito se assemelha ao FNR. ❤

FNR: Quando começou a estudar pra concurso?
Alexander: Comecei minha vida de “concurseiro” bem novinho, com apenas 17 anos. Nessa idade fiz minha primeira prova, para a Escola de Sargento das Armas – ESA, do Exército Brasileiro. Isso foi por volta do ano de 2003. Tecnicamente, não pode ser considerada uma avaliação para concurso público, pois o certame para o curso de sargento é mais parecidos com um vestibular. Mas para mim foi o impulso inicial para a vida de concursos que viriam pela frente, então eu considero esse meu marco inicial. Não fui aprovado, infelizmente (ou felizmente, rs), mas foi uma ótima experiência. Nessa época eu odiava o que eu fazia da vida (era auxiliar de mecânico), e meus pais não tinham condições para bancar uma faculdade. Então foi o ponta pé inicial para eu mudar de vida. Para o ESA estudei com uma apostila velha, que ganhei do meu tio, o qual havia servido ao exército nos anos 90, e tentou, mas também não conseguiu, ingressar no curso para sargento. Essa apostila, aliás, foi meu guia por muitos anos. Praticamente eu a decorei, de tantas vezes que a li. Naquela época não era fácil conseguir material de estudo como hoje.
Nos anos seguintes, tentei alguns certames para bancos, mas não fui aprovado.
No ano de 2005, aos 19 anos, fui aprovado (e nomeado) em meu primeiro concurso. O cargo era, inicialmente, técnico em educação, mas depois mudou para analista em educação, vinculado ao CEJA – Centro de Educação de Jovens e Adultos, da cidade de São Lourenço do Oeste/SC. Era um cargo a nível estadual. O dia dessa nomeação foi um dos mais felizes da minha vida. Nessa época eu trabalhava como funcionário de uma fábrica, na pequena cidade de Jardinópolis/SC. Assumi o cargo no CEJA em fevereiro de 2006, onde permaneci até novembro de 2009. Foram anos incríveis, trabalhei com colegas que me incentivaram demais. Nesse mesmo ano, estudando por fitas de vídeo do Telecurso 2000, que eram usadas para algumas aulas no CEJA, fui aprovado em 09º colocado para o curso de Direito, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, campus de Francisco Beltrão/PR. Como deu para notar até aqui, sempre fui autodidata, pouco afeto a professores presenciais, pois sempre tive meu próprio ritmo de estudo.
Fiz a faculdade entre 2007 e 2011. Nesse meio tempo, continuei trabalhando e estudando para concursos. Em 2008 fui aprovado para o cargo de Agente de Polícia Civil, do Estado de Santa Catarina, mas só fui nomeado em outubro de 2009, iniciando o curso de formação em novembro desse ano, encerrando em março de 2010.  Por sorte, aliada a ajuda dos professores e minhas notas, conseguir frequentar o curso de formação da Polícia Civil em Florianópolis/SC sem reprovar na faculdade, nem em 2009, nem em 2010. Após assumir o cargo, fiz diversos concursos públicos para vários cargos, de diversas áreas. Agente da Polícia Federal, analista de tribunais, técnico de tribunais, mas não fui aprovado em nenhum. Em 2012, após encerrar a faculdade, resolvi focar os estudos no cargo que pretendia: Delegado de Polícia. Um ano e meio depois, em 2013, fui aprovado na primeira e segunda fase do concurso de Delegado do Paraná. Alegria enorme, estava colhendo, finalmente, os frutos de tanto trabalho, dedicação e abdicação. Aliás, abdicação é um dos maiores sacrifícios. Noites sem dormir, finais de semana sem sair, domingos de manhã passados estudando, feriados em casa, estudando. Não sei quantas vezes disse para familiares e amigos que não poderia fazer algo porque tinha que estudar. Mas valeu o esforço. No mesmo ano de 2013 prestei concurso para técnico da Defensoria Pública de Santa Catarina, e fui aprovado.
Fui nomeado Delegado de Polícia do estado do Paraná em junho de 2014. Alegria indescritível, família toda reunida na posse. Mas não parei. Queria ser Delegado em meu estado, Santa Catarina. Na época do curso de formação de Delegados, no Paraná, “abriu” o edital para Delegado em Santa Catarina. Então passei o curso estudando, e ao final da primeira etapa fui aprovado em 07º lugar. Na segunda, caí para 14º, mas terminei em 09º, após a prova oral, em janeiro de 2015. Desde então parei de estudar para concurso e foquei no meu trabalho.
No ano de 2015 fui nomeado técnico da Defensoria Pública de Santa Catarina, mas não assumi, e em junho de 2016 fui nomeado Delegado de Polícia do estado de Santa Catarina, cargo em que estou até hoje.
Então posso afirmar que estudei para concursos públicos por mais de 10 anos, e nunca tive o privilégio (sim, se você só estuda e seus pais te bancam, você é um privilegiado) de apenas estudar, sempre tive de conciliar com meu trabalho, porém isso foi muito positivo na formação da pessoa que sou hoje.

FNR: Como era o seu método de estudo?
Alexander: Inicialmente estudava apenas por apostilas, fazia grifos no material, e quando realizava a releitura apenas focava nos pontos marcados. O problema é que tudo parecia importante, então grifava demais. Quando consegui acesso a vídeo-aulas, meu desempenho evoluiu muito. No primeiro curso que fiz anotei tudo em cadernos para depois fazer revisões. Estudava uma matéria por vez: só quando terminava uma começava outra. E se não aprendia um conceito, voltava a aula, até decorar. Iniciei por meu ponto fraco: português. Fiquei 04 meses vendo aulas, anotando tudo. Comprei livros de português, tanto de gramática quanto de questões comentadas. Meu melhor investimento foram as questões comentadas, pois nessa matéria não basta acertas as respostas, é necessário saber o porquê. Aos sábados à tarde eu fazia redações, e para isso usei, e muito, o site “Banco de Redações”, da UOL. Após o primeiro curso em vídeo, os que vieram em seguida eu acompanhei não escrevendo, mas pelo material de apoio fornecido em .PDF, porém “rabiscava” usando um programa chamado “Foxit”, o qual permite adicionar anotações, fazer comentários, grifar, sublinhar etc. os .PDFs. Fica a dica.
Também fiz milhares de questões comentadas, principalmente em sites especializados, os quais permitiam fazer simulados de todas as matérias. Além de responder, eu comentava a questão, uma maneira eficiente de se treinar uma eventual fase discursiva.
Nunca estipulei metas, pois como disse nunca pude “só” estudar, tendo de conciliar as aulas com o trabalho. Então, se levasse um ano para “vencer” todo o edital de Delegado, assim o faria, pois não tinha opção.
Antes das provas, um ou dois meses, eu não estudava conteúdo novo, apenas revisava o que já tinha anotado ou visto. Também usei muito os chamados “revisaços”, para relembrar conceitos. Nesse ponto, é muito importante a leitura de informativos, para atualização de entendimentos. Eu lia todos os informativos comentados pelo Márcio André Lopes Cavalcante, do Dizer o Direito. Aliás, um dos melhores materiais de estudo de jurisprudência que se há notícia.

FNR: A principal reclamação de quem estuda pra concurso é o esquecimento. Como realizava revisões?
Alexander: Meu método de memorização era a releitura e a realização de exercícios. Após encerrar um curso, lia todo o material anotado, seja em caderno ou .PDF, de todas as matéria e, após isso, iniciava uma bateria de exames e simulados com tudo o que eu havia estudado. Usei, e muito, os .pdfs do ponto dos concursos para decorar (sim, decorar) a lei seca. Acho que é o melhor material do mercado para isso. Durante minha jornada de trabalho, quando sobrava um tempo, eu abria um arquivo .PDF deles, e lia o que podia. Cheguei a ler o mesmo .PDF de direito constitucional mais de 10 vezes em um ano. Ao final, meu cérebro praticamente sabia qual seria a página seguinte (rs).

FNR: Fazia provas de outros concursos como treino?
Alexander: Fiz muitas provas, mais de 20, das mais diversas áreas. Nunca as fiz por treino, apesar de hoje notar que elas foram essenciais para eu pegar o “timing” de como responder as questões, por quais matérias começar, quanto tempo me ater a uma questão. Então eu recomendo demais que sejam feitas várias provas reais de concursos, mesmo que não sejam para o cargo almejado.

FNR: Você sempre soube que queria seguir a carreira policial?
Alexander: Não, como já citei, fiz inúmeros concursos de diversas áreas, e acabei entrando para a carreira policial porque o edital estava aberto. E digo, é bem diferente de todas as demais carreiras providas por concurso público. Os sacrifícios, a jornada de trabalho, o modo de vida de um policial são muito peculiares. Porém, após entrar, segui e foquei no concurso de Delegado de Polícia, um cargo que mistura operacional e jurídico.

FNR: Na sua prática como delegado da Polícia Civil desde 2014, poderia expor pontos que considera positivos e negativos na carreira?
Alexander: O cargo de Delegado de Polícia é uma das carreiras jurídicas do Estado mais satisfatórias de se trabalhar, e das mais difíceis também. Satisfatória pois nosso mister é elucidar infrações penais e revelar tramas criminosas, e por si só isso é excitante. Nada melhor do que dar uma de Sherlock Holmes e ir à cena do ilícito, colher depoimentos, requisitar perícias e ao final montar o quebra-cabeças que é decifrar um delito, chegando a sua autoria. Nós lidamos com o poder investigativo do Estado, angariando subsídios para se condenar ou mesmo absolver uma pessoa. Isso porque praticamente nada de novo se cria no processo penal, sendo por vezes uma mera repetição do que foi colhido no inquérito. E para isso nós ofertamos peças jurídicas ao Poder Judiciário, chamadas representações, as quais se ligam à restrição da liberdade, da intimidade dos indivíduos, através de prisões preventivas e temporárias, interceptações telefônicas e de dados telemáticos, buscas e apreensões. E não só representamos, também executamos as investigações, sempre em busca da verdade, e não de subsídio para a acusação, como comumente propalado. Nossa função muito mais se parece com a do magistrado, mas com poder instrutório, do que a do promotor.
Assim, a função do Delegado de Polícia é por demais importante, pois ao presidir as investigações e zelar por sua ilibação e qualidade praticamente está evitando absolvições indevidas e condenações equivocadas. Porém, ela é difícil. Muitas vezes temos de decidir no momento se iremos prender um soltar uma pessoa (autos de prisão em flagrante), e nem sempre isso é fácil, pois no calor do momento, na madrugada, cansado, com fome, com sono, nem tudo fica cristalino e a decisão pode ser equivocada.
Então nossa responsabilidade é enorme, e isso pesa. Isso porque se foi a época em que o Delegado de Polícia era visto como mero ratificador de conduções da Polícia Militar, em especial. O termo “na dúvida prende” já não serve mais em um Estado Democrático de Direito (com letra maiúscula mesmo). Somos Garantidores de Direitos mais do que qualquer coisa. Ocorre que essa mudança de paradigma é difícil de ser aceita. Não só pela própria instituição, acostumada com essa “política”, mas também pela população, que em tempos de “processo penal do espetáculo” quer ver prisões, independentemente de culpa (lato senso). Até mesmo outros órgãos da persecução penal por vezes acham que nossa função é somente prender, devendo a liberdade passar pelo seu crivo. Cito, por exemplo, o caso da dispensa de fiança e das excludentes da ilicitude. Uma lástima, pois temos de lidar, além de tudo, com o ego alheio. Então, a carreira é compensadora, pois devolver à uma família com parcos recursos o televisor tão sofridamente adquirido que lhe foram furtado, é sem dúvida uma sensação muito boa. Porém, estar sempre entre a “cruz e a espada”, devendo agir mas temendo cometer abusos, traz severo peso ao poder de decidir.

FNR: Como surgiu o Eu Polícia? O projeto é voltado apenas aos que pretendem seguir a carreira policial? Qual tipo de material é fornecido?
Alexander: Esse ano (2017) completo 08 na Polícia Civil, e desde que entrei trabalhei boa parte do tempo no noroeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná, e notei que a rotatividade de policiais nessas regiões é grande. Então, após tantos anos estudando, e face a tantas graças alcançadas, resolvi criar um projeto visando ajudar as pessoas dessas duas regiões que pretendessem ingressar na polícia, e de quebra auxiliar as entidades policiais dessas regiões a não perderem mais funcionários. O projeto se chama “Eu, Polícia”, e é voltado a oferecer material de estudo principalmente para concurso e agente da Polícia Civil do Estado de Estado de Santa Catarina, pois todo o material produzido foca nesse edital.
Para tanto, tão logo consiga minha lotação para São Lourenço do Oeste/SC, serão ministradas aulas presenciais uma vez por semana, à noite, nessa cidade, sem custo algum aos inscritos dessas regiões. Note-se que o objetivo é, essencialmente, que pessoas dessas duas regiões sejam aprovadas e nomeadas, para manterem-se lotadas próximas a suas casas, evitando-se a constante falta de efetivo por remoção.
Foi criado o site do Eu Polícia, no qual estão sendo produzidas, por ora, apenas aulas de Direito Penal, em formato de arquivos .PDF. Futuramente serão elaboradas vídeo dicas. Essas aulas são acessíveis a todos.
Por fim, Estamos em buscas de parcerias com outros professores e com entidade educacional que já tenha estrutura física, para disponibilizar um curso completo para o concurso de agente da Polícia Civil de Santa Catarina, em todo o Oeste de Santa Catarina.

Obrigada, Alexander! Vida longa ao Eu Polícia! 😀

Bons estudos!

Martina Correia

Obs.: de férias! Vejo vocês na segunda quinzena!

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4 comentários

  1. Olá Dr.ª Martina! Achei incrível a iniciativa de Dr. ALEXANDER MEURER, realmente, trazer candidatos da região para atuar nos setores dos órgãos, simplesmente é genial e ao mesmo tempo conceder a esses, paridade de armas com o acesso ao estudo. Eu muito me identifico com o trabalho de vocês, aliás, o seu trabalho Martina #focanoresumo é que muito se identifica com o trabalho do #eupolicia. Isso tudo me inspira a alcançar meu objetivo e também contribuir de alguma forma, assim como vocês fazem de todo o coração e despretensiosamente. Atualmente, até onde conheço, considero os melhores trabalhos/pessoas: a) Foca no resumo (Martina); b) Dizer o Direito (Márcio André); c) Fanpage: Professor Mauricio Moutinho (revisões diárias); d) Prof. Rogério Sanches (nas redes sociais); e) Prof.ª Cláudia Barros (aulas no periscope); f) Blog Eduardo Gonçalves; g) Prof.ª Flávia Rita (português) e agora h) Eu Polícia (Alexandre Meurer). Entre outros, as pessoas/trabalhos citados são incríveis e humanas que promovem, ajudam, fornecem material intelectual, dicas e tudo mais, tudo com muito amor e dedicação. Enfim, todos são de iguais equivalência, é peculiar, na medica que todas essas pessoas realizam um trabalho que se completam. Evidentemente também existe outros, com as mesmas características. Contudo os citados, são os que me fornecem subsídios excelentes para os estudos e me manter motivado, merecem todos nosso respeito. Parabéns! Sucesso e Deus abençoe vocês.

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  2. Boa tarde!

    Excelente matéria/entrevista, muito motivacional e com ótimos apontamentos sobre a carreira. Meu sonho é ingressar em carreira policial, principalmente na Civil, sendo este o motivo principal por agora eu estar me formando em minha faculdade visto que as carreiras policiais aqui em SC demandam superior.
    Há alguma maneira de contactar o delegado Alexander para poder tirar algumas dúvidas sobre a carreira e pegar uma dicas? No site do Eu Polícia não achei nenhum contato, somente a assinatura do feed.
    Obrigado e parabéns pelo ótimo trabalho!

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  3. Muito bom ler histórias de sucesso!!!Me revigora.
    Martina estou amando seu livro!!Era o complemento que faltava!!Esperando ansiosa o de Processo Penal e Processo Civil!!!!rsrs
    Infinitamente grata a você pela sua inteligência e compaixão em auxiliar o próximo.
    Beijos Raquel

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